Era tarde e em algum lugar da casa o barulho do relógio se tornava mais alto conforme a noite avançava. Olhou para seus rascunhos intocados, era a terceira vez naquela semana. Lembrou-se do tempo em que ainda menina cismou em escrever um livro e de uma época em que andava com uma pasta tão cheia de anotações quanto fosse possível, usava as paredes da escola como apoio para que as ideias não lhe escapassem, e tudo fluía. Dentro da sala, no intervalo entre as aulas e até mesmo enquanto conversava, as palavras desenredavam-se, ganhavam caminho, sopravam um tanto de vida quando ela as lia de novo para si mesma, confiando em suas verdades.

Acordou do pensamento enquanto catava um texto pelo caminho e corria os olhos pelo conteúdo: era teoria, tudo o que via, tudo a que se resumiam os seus dias agora. Revirou os olhos em descontentamento. Considerou os motivos de ter, nos últimos tempos, perdido a pista da trilha que a levara até ali; tudo o que mais queria que permanecesse foi justamente aquilo que ficara pelo trajeto primeiro. Havia agarrado-se às suas regras e numa crise de egocentrismo rasgara até mesmo todos os seus desabafos antigos, "escrevo melhor do que isso", pensou. Nenhuma garota de quinze anos superaria o que havia acumulado de experiência, achava até graça quando dizia em voz alta que ainda tão imatura pensara em escrever. Agora encarava as próprias mãos, surpreendia-se com a imensidão de tempo que elas conseguiam passar sem escrever de novo. Mãos escravas, sempre trabalhando em algo; coisas que para ela, normalmente, não faziam a menor diferença.

O espelho se encontrava ao lado de onde estava e foi até ele que seguiu até parar diante do tal objeto que aprendera, sofregamente, a encarar com a seriedade que a idade vai nos dando. Fitou os próprios olhos fundos e ensaiou um sorriso, parecia zombar de si mesma.
Vai ver era isso o que seu reflexo fazia naquele instante enquanto ela erguia as mãos e em um movimento mecânico prendia os cabelos, vai ver era isso que a garota de anos atrás fazia agora. Ria. Seu riso espontâneo em uma confiança invejável, de que nada tinha a melhorar, estava pronta.

Sem que nenhum desses pensamentos lhe desequilibrasse observou por mais um instante os ponteiros do marcador à sua frente, mais uma qualidade de sua nova vida: sabia engolir seus próprios sapos. O ponteiro agora marcava duas e dezoito, dali a menos de três horas acordaria de novo e ensaiaria qualquer desculpa a si mesma para não ter escrito nada, durante mais uma madrugada. Deitou-se e as pálpebras pesaram rapidamente. Dormiu um sono sem sonhos, despertou e se preparou para repetir os mesmos gestos mecânicos. Fez o que todos esperavam: aceitou essa vida.
E assim matou a si mesma, mais uma vez, em mais um dia.
Era de novo uma folha vazia.
Era nada.



3 Comentários

  1. Oi, Dri!
    Nossa, que texto da bad, mas bem profundo. Infelizmente, na nossa sociedade, tem muitas pessoas assim: mortas por dentro.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  2. Acho que não dá pra expressar de forma mais poética o que acontece conosco. As vezes penso se isso é inevitável, imposto ou se é só uma fase, essa última eu uso com frequência como desculpa. Infelizmente isso acontece, não sei se com todo mundo, mas eu tb já fui engolida pela superficialidade da rotina, pelo cansaço, pela correria, pelas obrigações. Essa repetição vai afogando aos poucos o que temos de mágico em nós. As vezes eu tento volta, mas quem garante que ainda sou "viva" por dentro, não é mesmo. Seu texto está fabuloso <3

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  3. Oi Dri, tudo bem?
    Menina que texto repleto de sentimentos, maravilhoso.
    Gosto de textos com uma pegada mais melancolica, e você simplesmente foi perfeita.
    Beijo

    www.tecontopoesia.com

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